Os Estados Unidos mantêm a maior e mais sofisticada máquina militar da história global. Com um orçamento de defesa astronômico e superioridade tecnológica em praticamente todos os domínios, o poderio bélico americano é, ainda, incomparável.
No entanto, a paradoxal realidade da política externa de Washington é que, apesar de toda a força militar, os presidentes americanos sistematicamente evitam – e temem – conflitos prolongados.
Esse fenômeno não é fruto de fraqueza momentânea. Trata-se de um trauma histórico profundo que continua a moldar o inconsciente coletivo da sociedade americana e, por conseguinte, a balizar a atuação de qualquer liderança na Casa Branca.
A relutância americana em se envolver em atoleiros militares de longo prazo tem raiz direta na Guerra do Vietnã (1955–1975). O conflito não representou apenas uma derrota geopolítica e militar para os Estados Unidos; foi, acima de tudo, uma fratura social profunda.
Naquele conflito, pela primeira vez na história moderna, a guerra entrou nas salas de estar americanas por meio da televisão, exibindo corpos de jovens soldados retornando em caixões cobertos pela bandeira americana. Foram mais de 58 mil vidas perdidas em uma causa que a opinião pública passou a considerar vaga e moralmente insustentável.
De forma direta, entrou em campo a reflexão sobre ‘custo humano’.
O abismo entre a retórica oficial do governo e a realidade brutal dos campos de batalha gerou uma desconfiança crônica em relação às instituições estatais e militares – um ceticismo que perdura até os dias de hoje.
Na política externa, o termo cunhou a aversão generalizada da opinião pública a intervenções militares externas prolongadas, especialmente aquelas sem objetivos claros ou com alto risco de expressivas baixas humanas.
Memória histórica
Para as famílias americanas, o envio de entes queridos para a guerra carrega o peso dessa memória histórica. Os eleitores punem severamente governos que os arrastam para pântanos militares sem fim. Consequentemente, nenhum presidente pode ignorar o custo político interno de um conflito prolongado.
Conflito com o Irã
Ao iniciar as hostilidades contra o Irã, o governo americano liderado por Donald Trump buscou enquadrar a operação dentro do velho molde das “guerras rápidas”, prometendo uma resolução em poucas semanas.
Contudo, a realidade geopolítica do Oriente Médio raramente se curva aos cronogramas da Casa Branca. Deflagrado no final de fevereiro, o conflito com o Irã já ultrapassa a marca de cinco meses de duração, desafiando as previsões iniciais e expondo as fragilidades de uma estratégia baseada no otimismo de curto prazo.
A maior máquina de guerra do mundo é refém de sua eficácia política. O caso atual com o Irã reforça uma lição histórica inegável: para os Estados Unidos, iniciar uma guerra é uma decisão complexa, mas mantê-la por meses a fio é um risco político insustentável – reflete no resultado das urnas.
Última
Enquanto a sombra do Vietnã continuar pairando sobre as famílias americanas, a pressa por vitórias rápidas continuará sendo a única linguagem aceitável para justificar o uso da força militar.
Por Valter Nogueira