
A revelação que veio a público sobre os bastidores da segurança do governo norte-americano expõe, de maneira crua, a face mais utilitarista e cínica da geopolítica de Washington. Durante um deslocamento oficial partindo da Turquia, a inteligência dos Estados Unidos identificou um suposto plano de ataque iraniano direcionado ao avião presidencial (Air Force One).
Em uma operação digna de roteiros de suspense militar, o presidente Donald Trump foi retirado da aeronave às escondidas por meio de um caminhão de catering e transferido para um jato militar menor.
O que transforma uma simples manobra de proteção em um grave escândalo ético e humanitário, contudo, é o que foi deixado para trás: centenas de assessores e jornalistas internacionais.
Enquanto o chefe de Estado garantia sua própria sobrevivência em absoluto sigilo, a máquina de segurança americana manteve a imprensa e funcionários a bordo do avião original. Sem serem informados de que havia uma ameaça iminente de abate ou atentado, jornalistas de diferentes partes do mundo foram transformados, sem o menor consentimento, em iscas humanas.
A operação revela o desprezo pela vida. A lógica imperial operou, neste caso, sob o lema cínico de que a segurança do líder máximo justifica qualquer atrocidade moral, inclusive colocar civis inocentes na linha de tiro direta de um potencial ataque com mísseis ou explosivos.
A gravidade do ato ganha contornos ainda mais alarmantes quando se observa o tratamento dispensado à imprensa. Os jornalistas, que cumprem o papel fundamental de relatar os fatos e fiscalizar o poder, foram tratados não como profissionais ou cidadãos com direito à vida e à informação, mas como danos colaterais aceitáveis ou, pior, como alvo potencial para canhão antiaéreo.
A naturalização dessa postura revela o fracasso ético de uma administração que mercantiliza a segurança e viola preceitos básicos de direitos humanos e dever de alerta (duty to warn). Se um avião repleto de jornalistas internacionais e de funcionários do próprio governo americano pudesse ser sacrificado ou colocado sob risco letal apenas para garantir a fuga discreta de um presidente, fica evidente que, para o establishment de Washington, o mundo inteiro é um tabuleiro de xadrez onde vidas humanas são descartáveis.
A condenação a essa postura não deve partir apenas de redações ou associações de imprensa, mas de toda a comunidade internacional. Trata-se de um lembrete sombrio de que, sob o verniz da democracia e da defesa da liberdade, a ação imperial dos Estados Unidos frequentemente opera sob a lei do mais forte, onde o sacrifício dos outros é apenas um detalhe burocrático na rota de fuga do poder.
Não teve plano B para salvar vidas
O Air Force One poderia ter ficado em solo turco mais tempo, sob alegação de problema técnico. Em seguida, seria iniciada a transferência dos passageiros e tripulantes para outra aeronave. Isso, claro, deveria ocorrer logo após Trump ter chegado em segurança na base militar no Reino Unido. Mas, não foi isso que aconteceu: o Air Force One, sem o presidente a bordo, decolou sob risco de ser abatido.
Reflexão
Tente olhar o episódio por outro ângulo, independente de cor partidária e ou ideologia política. Isto é, veja pela ótica dos familiares dos funcionários e jornalistas que embarcaram naquele avião.
Tente dizer aos pais de um(a) daqueles passageiros que a vida do presidente é maior que a vida dos seus filhos(as). Qual presidente merece que você – ou seu filho(a) – morra no lugar dele?