Foi sempre assim! Desde a era de Cristo – ou antes – os poderosos sempre procuram bodes expiatórios; alguém ou algo para imputar a culpa. No Brasil, o Nordeste é o saco de pancada, por assim dizer.
O motivo do introito é para destacar que o Nordeste foi alvo de 27 milhões de manifestações hostis à Região e aos nordestinos, disseminadas nas redes sociais nas primeiras 72 horas após o 1º turno das eleições 2026. Os dados advém de levantamento da Ativaweb DataLab, revelados em primeira mão por matéria do site UOL.
O motivo dos ataques não é outro senão o fato de Lula, candidato a reeleição, ter vencido na região na primeira etapa do pleito, realizada no último domingo, dia 4 de outubro de 2026.
De acordo com o levantamento, foram 32,8 milhões de menções, links e compartilhamentos relacionados ao voto nordestino. Desse total, 82,2% tinham conteúdo crítico à região. É uma média de 456 mil manifestações por hora, ou 7.600 por minuto.
O estudo mostra que a onda ultrapassou a divergência sobre candidatos e resultados eleitorais. O discurso identificado associou nordestinos à pobreza, dependência, ignorância, fraude eleitoral e inferioridade.
Entre as manifestações classificadas como hostis, aparecem:
26,9% — vergonha e autodepreciação;
22,1% — associação com pobreza e dependência;
18,3% — ataques à capacidade intelectual;
12,5% — desumanização;
12,5% — defesa de segregação territorial.
É aqui que a discussão muda de patamar. Criticar o voto é parte da democracia. Transformar milhões de brasileiros em alvo por causa do lugar onde nasceram é outra coisa.
Há outro dado que chama a atenção e incomoda. É que o estudo identificou também manifestações de próprios nordestinos reproduzindo o discurso de desprezo contra a região, com frases de vergonha da própria origem. É um fenômeno especialmente preocupante porque o preconceito deixa de ser apenas uma agressão externa e passa a ser reproduzido pelo próprio grupo atingido.
As agressões merecem atenção e reflexão.
O resultado eleitoral pode e deve ser debatido, assim como o voto, candidatos, governos etc. Mas, promover campanha difamatória contra um povo de uma região apenas por ter votado, preferencialmente, em um candidato é algo inconcebível – no mínimo, preocupante! A leitura que se faz é que as mensagens hostis, no conjunto, não se trata de crítica política, mas sim de tentativa de transformar uma região inteira em caricatura eleitoral.
Realidade heterogênea
O Nordeste não é um eleitorado homogêneo. São nove estados, centenas de municípios e milhões de brasileiros, com escolhas políticas diferentes, histórias diferentes e interesses muitas vezes divergentes.
A democracia não termina quando o eleitor vota diferente. É justamente aí que começa o teste de tolerância de quem perdeu — e de responsabilidade de quem ganhou.
Última
O candidato Lula venceu na cidade de São Paulo, capital do Estado de São Paulo. Nem por isso, houve ataques contra o eleitorado paulistano.
Por Valter Nogueira