O mundo assiste a um momento de extrema gravidade para a diplomacia e a estabilidade global. No cenário internacional de incertezas, a humanidade se depara com uma mistura de perplexidade e indignação ante a escalada de hostilidades que ignora décadas de aprendizado diplomático.
Em um curto intervalo, Donald Trump reativou mecanismos de pressão que transcendem a esfera política para atingir o coração da sobrevivência humana e da segurança global, a saber: o bloqueio total de combustível a Cuba e o ataque militar ao Irã em pleno curso de negociações.
Devo dizer – antes de levar pedradas – que o repúdio à ação terrorista de Trump não significa concordância com o regime político iraniano; também não sou simpatizante do regime cubano.
O propósito deste artigo é debater o mérito da questão. Por traz do regime de Cuba, há uma população que não poder pagar pelos erros de seus governantes. No caso do Irã, não se ataca o oponente quando ele está sentado à mesa de negociação.
O estrangulamento energético de Cuba se traduz em violência econômica. O cerco total ao petróleo que chega à ilha não é apenas uma medida de “pressão por mudanças”. É, na prática, uma forma de punição coletiva contra 11 milhões de civis.
Ao interromper o fluxo de petróleo vindo da Venezuela, Trump não ataca apenas um governo, ataca hospitais e serviços básicos. Sem energia, o sistema de saúde colapsa. O ataque atinge a segurança alimentar; a cadeia de transporte e preservação de alimentos depende diretamente do combustível.
Ao punir terceiros por negociarem com Cuba, os EUA sob a batuta de Trump exercem uma extraterritorialidade que viola o Direito Internacional.
Assassinato da Diplomacia
Ainda mais alarmante é o ataque militar contra o território iraniano ocorrido no último sábado, dia 28 de fevereiro. O que torna essa ação particularmente repudiável é o seu timing: a agressão ocorreu apenas horas antes de uma rodada crucial de negociações na Suíça, mediada por Omã, que buscava evitar justamente o que agora parece inevitável — uma guerra aberta no Oriente Médio.
Atacar um interlocutor no momento em que ele se senta à mesa de negociações não é estratégia de força; é o assassinato da diplomacia. Ao agir de forma unilateral, sem autorização do Congresso e ignorando os apelos da ONU, a atual gestão trumpista invalida a confiança internacional – que nação aceitará negociar sob a promessa de paz se o ataque é a resposta imediata?
Por fim, Trump desdenha do multilateralismo. O bombardeio antes do tempo é um ataque simbólico a Genebra; desmoraliza os esforços de paz europeus e árabes.
Resumo da ópera
O uso da fome como arma em Cuba e do bombardeio como prefácio de uma reunião na Suíça desenha um mundo onde a força bruta substitui o diálogo. O repúdio a essas ações não é uma questão de alinhamento ideológico, mas de defesa da civilização. A paz e a dignidade humana não podem ser moedas de troca em um jogo de poder que ignora as leis internacionais.
Por Valter Nogueira