Em mais um capítulo de sua agressiva e isolacionista política externa, a administração de Donald Trump anunciou a imposição de um novo tarifaço de 25% sobre os produtos brasileiros. Mas, o que realmente chama a atenção não é a agressividade comercial – marca registrada do republicano –, mas sim o contorcionismo retórico e as desculpas esfarrapadas utilizadas por Washington para justificar a medida, elegendo o inovador sistema de pagamentos Pix como o grande vilão do comércio internacional.
Paralelamente à asfixia econômica, os Estados Unidos tentam operar uma flagrante interferência na soberania jurídica do Brasil. Sob o pretexto de defender a “liberdade”, Washington usa sanções e pressões políticas para tentar constranger o Supremo Tribunal Federal (STF) a anistiar os golpistas envolvidos nos atos antidemocráticos.
Diante desse cenário de dupla pressão, no entanto, o Brasil vem deixando claro que não pretende se curvar.
Na outra ponta, a agressividade de Trump parece transparecer o desespero do atual governo americano em razão de não ter conseguido reverter o declínio já aparente da economia dos Estados Unidos da América. E, por conseguinte, do Império Americano, cuja queda se acentua no governo atual. A retórica da America First parece cair por terra – e sob direção de Donald – , como bem ilustra a charge americana ao lado.
A dívida pública dos Estados Unidos atingiu US$ 38 trilhões em 2025, o que corresponde a aproximadamente 130% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, marcando um recorde histórico.
A eficiência do Pix
A eficiência brasileira vira “ameaça” ao império. Assim, a justificativa formal apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) beira o ridículo. O relatório americano aponta o Pix como uma “prática comercial injusta” que restringe o comércio norte-americano.
A lógica de Washington é tão absurda quanto transparente:
1) O sucesso incomoda: Somente em 2025, o Pix movimentou mais de R$ 35 trilhões de forma rápida, segura e gratuita.
2) O “pecado” de não pagar pedágio: Por ser um sistema estatal e gratuito, o Pix evita que bilhões de reais em taxas de intermediação financeira saiam do bolso dos consumidores brasileiros diretamente para os cofres de gigantes americanas de cartões, como Visa e Mastercard.
3) A retórica protecionista: Para Trump, a soberania tecnológica e financeira do Brasil é lida como “barreira comercial”. O império não aceita que o Brasil tenha criado uma tecnologia financeira de exportação que prescinde do sistema bancário norte-americano.
3) O diagnóstico é claro: O tarifaço não é uma resposta a práticas desleais do Brasil, mas sim uma punição por termos desenvolvido um sistema financeiro eficiente demais para os padrões de dependência que os EUA gostariam de impor.
A interferência no STF e a defesa dos golpistas
Enquanto tenta estrangular a economia brasileira com tarifas, a Casa Branca atua em outra frente de chantagem: a política-institucional. Em uma ousada afronta à soberania nacional, o governo Trump aplicou sanções (utilizando instrumentos como a Lei Magnitsky) contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos que investigam a tentativa de golpe de Estado no Brasil.
O objetivo dessa manobra é evidente:
1) Pressionar o Judiciário: Forçar o STF a recuar nas punições aos envolvidos nas manifestações e planos golpistas pós-eleições de 2022.
2) Exigir anistia: Dar musculatura política à extrema direita doméstica que clama por uma anistia “ampla, geral e irrestrita” para os presos do 8 de Janeiro e para os articuladores da tentativa de golpe.
3) Contar com apoio de dentro: Parlamentares da oposição brasileira não hesitam em fazer coro à pressão externa, chegando ao cúmulo de defender que o “culpado pelas tarifas” é o próprio STF por não ceder às exigências de Washington.
A altivez brasileira
O Pix e a soberania são inegociáveis. Isto é, apesar do bombardeio econômico e diplomático, o Brasil tem dado demonstrações de que os tempos de subserviência diplomática ficaram no passado.
O governo brasileiro e o Banco Central já sinalizaram que o Pix é um patrimônio nacional inegociável.
Na arena jurídica, o STF e as demais instituições democráticas mantêm-se firmes no propósito de processar e julgar os crimes contra o Estado Democrático de Direito. A tentativa de converter tarifas comerciais em moedas de troca para blindar golpistas fracassou diante de um país que compreende que a estabilidade de suas instituições e o respeito à lei não possuem preço.
Por Valter Nogueira