A ascensão da extrema-direita no Brasil teve como estopim o colapso do ecossistema político tradicional após a derrota de Aécio Neves nas eleições de 2014. O desgaste dos partidos tradicionais e a incapacidade de reorganização das forças de centro-direita geraram uma dispersão entre os setores liberais e conservadores moderados. Sem um projeto unificado e com o sentimento antipetista em ascensão, criou-se um vácuo de liderança no campo da oposição, à época.
A ausência de um nome moderado e competitivo permitiu que uma vertente radical capturasse a insatisfação popular e preenchesse o espaço vago. Em outras palavras, a lacuna foi preenchida por Jair Bolsonaro – tornou-se porta-voz da insatisfação.
Nesse contexto, é possível afirmar que a vitória nas urnas em 2018 não decorreu da conversão ideológica do país ao bolsonarismo, mas de uma decisão pragmática do eleitorado de centro e da direita tradicional. Sem candidatos viáveis no campo liberal no segundo turno, esses setores enxergaram na candidatura do PSL a única ferramenta disponível para derrotar o Partido dos Trabalhadores.
Bolsonaro elegeu-se amparado por uma coligação informal de eleitores cujo foco principal era a rejeição ao PT, e não a adesão incondicional às suas bandeiras ideológicas. Em outras palavras, Bolsonaro contou, à época, com o empréstimo de votos antipetistas.
O exercício do mandato colocou à prova essa aliança de oportunidade. Aconteceu que, ao chegar ao poder, Bolsonaro não soube se sustentar na sela – ou melhor, na cadeira de presidente. Atos e comportamentos inadequados a um chefe de Nação o fez enfrentar tensão institucional e afastamento dos moderados.
A condução da crise sanitária, marcada por posturas negacionistas, aliada aos constantes tensionamentos com os Poderes e aos acenos ao autoritarismo, provocou o desembarque de uma fatia expressiva da direita moderada. O eleitor que havia votado em 2018 por pautas econômicas ou por antipetismo passou a ver na retórica de confronto permanente um risco à estabilidade democrática e institucional.
Eleições de 2022
A eleição de 2022 evidenciou o teto eleitoral do bolsonarismo. Embora tenha mantido um núcleo duro altamente engajado, a perda da parcela pragmática do eleitorado inviabilizou sua reeleição. O resultado das urnas confirmou que o êxito obtido quatro anos antes dependera de votos “emprestados” por falta de alternativa, demonstrando que a base estritamente bolsonarista não possui envergadura numérica para construir, por conta própria, uma maioria nacional.
Última
A derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 expôs uma fragilidade estrutural de seu projeto político: a ausência de um eleitorado próprio suficiente para, de forma isolada, garantir uma vitória presidencial.
Por Valter Nogueira