As eleições presidenciais de 2022 no Brasil deixaram marcas profundas no debate público – é fato! No entanto, nenhuma narrativa se provou tão vazia de dados – e tão cheia de preconceito – quanto a que atribui a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva exclusivamente à região Nordeste.
Dizer que Lula “venceu apenas no Nordeste” não é apenas uma manifestação de profunda ignorância matemática e geográfica; é a roupagem pseudopolítica de uma das práticas mais repulsivas do cenário nacional: a xenofobia.
O motivo do introito é para contrapor um vídeo publicado nas redes sociais por um cidadão carioca, nesta semana. Na publicação, o jovem carioca reacende o debate em torno da responsabilização do Nordeste pela derrota de Bolsonaro no pleito de 2022.
No vídeo, o jovem diz que o Nordeste deveria se separar do Brasil, pelo simples fato de Lula ter vencido na região. Ora, se o motivo é esse, esse cidadão deveria sugerir a mesma coisa (separação) ao estado de Minas Gerais.
No primeiro turno das eleições de 2022, o candidato Lula (PT) venceu em Minas com 48,29% dos votos registrados para presidente da República (5.802.571). Jair Bolsonaro (PL) obteve 43,60% dos votos (5.239.264). Lula venceu, também, no segundo turno, com 50,20% dos votos válidos, superando Bolsonaro (49,80%).
No estado mineiro, Lula venceu em 630 municípios, enquanto Bolsonaro venceu em 223.
Análise matemático
Ao analisar friamente os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o mito do isolamento eleitoral do Nordeste desmorona por completo, revelando que o êxito da coligação vitoriosa foi, na verdade, um esforço nacional e multipartidário.
Para que um candidato vença uma eleição presidencial em um país continental com mais de 156 milhões de eleitores, a matemática exige ampla capilaridade. Lula obteve 60,3 milhões de votos no segundo turno. Desse total, cerca de 22,5 milhões vieram do Nordeste.
A conta é simples: se Lula dependesse apenas do Nordeste, ele não teria chegado sequer perto da presidência. Aproximadamente 37,8 milhões de seus votos – a grande maioria – vieram de outras regiões do país.
Lula venceu em 13 estados, expandindo sua força para muito além das divisas nordestinas.
Na região Sudeste, o candidato petista venceu em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país. No Norte, Lula venceu no Amazonas, no Pará e em Tocantins. Lula venceu, ainda, em capitais do Sul e Sudeste, como São Paulo (SP) – a maior metrópole da América Latina – e Porto Alegre (RS).
Portanto, ignorar os milhões de votos obtidos no Norte, no Sudeste e no Sul é um erro crasso de leitura estatística, motivado por uma visão de túnel que prefere a narrativa ao fato.
O preconceito
Se os dados provam o contrário, por que a narrativa de que “o Nordeste decidiu sozinho” continua sendo repetida? A resposta é dolorosa: xenofobia estrutural.
Historicamente, sempre que o resultado das urnas contraria os interesses de elites econômicas do Sul e do Sudeste, o Nordeste é eleito como bode expiatório. O preconceito se manifesta de forma sórdida nas redes sociais por meio de ofensas que associam os cidadãos nordestinos à “ignorância”, ao “atraso” etc.
Essa postura revela um duplo padrão moral e intelectual. Quando o Sul/Sudeste vota em um candidato, é chamado de “voto consciente”, “produtivo” ou “técnico”. Quando o Nordeste vota, é rotulado de “voto comprado” ou “voto de cabresto”.
Existe, ainda, a ignorância socioeconômica: ignora-se que o Nordeste é um polo efervescente de inovação, transição energética, educação pública de referência (como o Ceará) e cultura.
Reflexão
A tentativa de isolar a vitória de Lula no Nordeste é uma combinação de desinformação matemática com elitismo cultural. O resultado de 2022 refletiu a vontade de uma frente ampla e geograficamente descentralizada de brasileiros.
Última
Utilizar o resultado das urnas para destilar ódio contra o povo nordestino não é debater política; é crime de xenofobia. A democracia brasileira é forte justamente porque é plural, e a tentativa de fragmentá-la por meio de preconceitos regionais só demonstra a pequenez daqueles que não sabem conviver com a soberania do voto popular.
Por Valter Nogueira