Há uma curiosidade que, por vezes, passa despercebida do imaginário coletivo quando o assunto envolve conflitos bélicos entre duas ou mais nações: o nome da guerra. Na história clássica, as guerras frequentemente recebiam nomes baseados em seus objetivos, na duração ou nas coalizões envolvidas.
Guerra dos Cem Anos e Guerra da Tríplice Aliança ilustram bem o introito desta análise.
Acontece que o mundo gira! As táticas e técnicas bélicas também mudam. Em outras palavras, é possível observar que, nos conflitos das últimas décadas, surge um padrão semântico inegável: o nome da guerra é, quase invariavelmente, o nome do país que foi invadido/agredido ou que serve de palco para a destruição.
Da Guerra do Vietnã à Guerra da Ucrânia, a nomenclatura moderna revela muito sobre a natureza geopolítica do nosso tempo e sobre quem detém o poder de narrar a história, o que especialistas denominam de “Geografia do Agredido”.
Guerra do Iraque (2003), Guerra do Afeganistão (2001) etc! O que isso nos revela? Aponta que o nome do país funciona como um marcador geográfico da “intervenção”. Nestes casos, as potências agressoras (lideradas pelos EUA e aliados) raramente viram o conflito chegar às suas próprias fronteiras.
Ao batizar o conflito com o nome do território invadido, cria-se uma percepção de que o “problema” é localizado. A guerra não é “dos Estados Unidos”, mas sim “no Iraque”. Isso gera algumas consequências psicológicas e políticas, tais como externalização do conflito e identificação da vítima.
No primeiro caso, para o cidadão do país invasor, a guerra acontece em um lugar distante, reforçando a ideia de que o seu país é apenas um “agente de ordem” em uma terra alheia. Quanto a identificação da vítima, ironicamente, o nome acaba por imortalizar o sofrimento daquela nação específica. O solo agredido torna-se o substantivo que define a tragédia.
O exemplo mais recente e evidente é a Guerra da Ucrânia. Embora a agressora seja a Rússia, o conflito não leva o nome do invasor. Chamar de “Guerra da Ucrânia” destaca onde o sangue está sendo derramado e onde as infraestruturas estão sendo destruídas.
Em paralelo, e de forma curiosa, a Rússia tentou impor sua própria nomenclatura — “Operação Militar Especial” — em uma tentativa clara de fugir do peso semântico da palavra “guerra” e de evitar que o nome do próprio país fosse associado a uma agressão direta perante a opinião pública interna.
Por que não “Guerra da Rússia” ou “Guerra dos EUA”?
O leitor pode e dever se perguntar por que raramente dizemos “A Guerra da Rússia” (para se referir à invasão na Ucrânia) ou “A Guerra Americana” (como os vietnamitas, aliás, chamam o que conhecemos como Guerra do Vietnã)?
Acontece que a mídia global, muitas vezes sediada em potências ocidentais, tende a nomear os conflitos pelo local da crise. Nomear uma guerra com o nome do agressor seria um veredito de culpa imediato. Ao usar o nome do país agredido, a linguagem mantém uma aparência de “neutralidade geográfica”, mesmo que a agressão seja clara.
Resumo da ópera
Dizer “Guerra da Ucrânia” ou “Guerra do Irã” é um lembrete de que, na geopolítica atual, o prestígio de ser o “palco” de uma guerra é uma tragédia que marca o nome de uma nação para sempre, enquanto o agressor, muitas vezes, consegue manter seu nome fora do título do livro da história.
Por Valter Nogueira